Colombia travel

El Cocuy Parte II – O Hiking

A burocracia

Não podíamos ter ficado mais satisfeitos com a decisão de dormir em El Cocuy! A burocracia para subir ao camping e estar com tudo certo para entrar no Parque Nacional é realmente grande. Vou tentar explicar aqui, e já deixarei alguns contatos no fim do post pra facilitar a vida de algum possível viajante desejoso de encarar esta aventura.
Vamos lá! Para você comprar o ingresso de acesso ao parque você precisa comprar seguro de vida para você (caso tenha algum que segure sua vida em altitudes acima de 4000m precisa imprimir e anexar a cópia) e para o guia que irá acompanhá-lo, além de dizer qual hiking/caminho será feito em cada dia, assim como determinar o intervalo de dias que você quer que esse seu ingresso compreenda. Explico: Hoje existem 3 trilhas diferentes que podem ser feitas no Parque, qualquer uma delas leva um dia inteiro de caminhada. Você deve deixar informado nos escritórios do Parque Nacional (existem 2 um na cidade de El Cocuy e outro em Guican) qual trilha, em que dia e com que guia será feita!
Esse monte de exigências é que causa o grande problema! Por mais que eles lhe apresentem uma lista com os nomes e telefones dos guias cadastrados, o valor do guia/dia indicado no escritório do parque é mais alto (COP$150.000-$300.000) do que negociando diretamente com o guia. Cada guia pode levar até 6 pessoas, e se você deseja dividir para economizar, precisa estar nos campings/hostels onde as pessoas se reunem para o hiking ou ao menos combinar com o guia dias em comum com outros trilheiros e assim formar um grupo! Fora isso, eles não indicam os guias por qualidade de serviço, um de nossos amigos teve uma péssima experiência no primeiro dia com um guia que ficava apressando ele enquanto ainda estava se aclimatando aos 4000m de altitude! Esses pequenos impecilhos, confesso, me irritaram bastante! Ficamos num vai-e-vem da seguradora pra lojinha que ‘vende minutos’ de telefone para conversarmos com o guia, o dono do camping e nossos amigos antes de definir qualquer coisa. Eles são bem rígidos quanto a essas regras e não se esforçaram nem um pouco para facilitar nossa empreitada.
No final, utilizamos nosso seguro de viagem emitido pelo cartão de crédito, pagamos 3 dias de seguro para o guia indicado pelo nossos amigos como “um dos bons”, pedimos para o intervalo de dias de acesso ao parque fosse de 6 no total, pois pensamos em fazer os 3 circuitos e para o caso da gente precisar descansar entre eles – uma amiga nossa passou mal e não conseguiu fazer o 2º dia de hiking junto com os meninos – e a atendente do parque escolheu cada dia de hiking de acordo com o que faltava para o grupo dos nossos companheiros e seu guia, pois inicialmente nos uniríamos a eles. Compramos suprimentos e encomendas e subimos ainda mais alto nas montanhas!!

Os cobiçados picos nevados das montanhas da Colômbia
Finalmente chegamos! Lá em baixo nosso Campground e acima os Picos nevados!

Amigos

Chegando ao camping e falando com o guia e a galera, tudo mudou! O guia cobra COP$120.000 e pode até se negociar por COP$100.000 se for menos gente. Pelo menos não tivemos que deixar o guia pago, apenas o nome associado a nós e o seguro dele – que é COP$7.000/dia – pago. Quase desistimos em função de todos esse trâmites, mas que bom que seguimos firmes e fortes aos nossos objetivos, porque o lugar é realmente maravilhoso!!! A estrada até o camping é cruzando fazendas cheias de ovelhas fofas e vaquinhas holandezas bem peludinhas, com aquela carinha gorducha de embalagem de chocolate Milka e suas grandes orelhas caídas! Tudo muito virgem e natural. Nos acessos às fazendas vimos muitos galões de leite aguardando para serem resgatados… O nosso camping foi sensacional também, com uma vista privilegiada aos picos nevados!
Nossa amiga que não conseguiu ir ao 2º hiking nos recepcionou como senhora do lugar! O dono havia ido até Bucaramanga tratar de uma dor de dente naquela manhã, e havia deixado eles sós. Por sinal, um episódio engraçado: quando estavamos fazendo as compras na cidade de El Cocuy, eu estava bem bela em um mercadinho escolhendo batatas quando um cara me cumprimenta. Eu retorno, educada, mas estranhando. O cara segue me encarando. Eu me viro, me fazendo um pouco de louca – já ressabiada – quando escuto ‘Tu não é a brasileira?’ Opa! Sim, pelo jeito, essa sou eu! Que sensação esquisita ser definida assim, num lugar estranho onde ninguém me conhece. Já pensei que havia algum problema! Só que não. Era o dono do camping! Não é que ele não só nos achou, ‘os brasileiros’ mas também achou nosso carro e deixou lá o cartão com o mapa pra chegarmos à sua hospedagem? Ele desatou a falar e me explicar tudo e mais um pouco dele, do dente, do camping, do hiking, da nossa amiga que passou mal, tudo num espanhol muito rápido que eu malemal acompanhava concordando com a cabeça, mas que quando ele finalizou dizendo “fiquem a vontade para usar a cozinha” eu reforcei o agradecimento um pouco mais!
O reencontro com os amigos não poderia ter sido melhor! Era quase lua cheia, aquela lua cheia especial, a super lua azul brilhante, nós estávamos nos altos das montanhas próximos à linha do Equador, que descobrimos ser um dos locais mais próximos da lua que se pode estar, no mundo!! Ainda mais próximo que no topo do Everest, por ser na linha do Equador onde a circunferência da Terra é mais larga. Nós estávamos sós no camping, curtindo um fim de tarde regado a cantoria, violão e ukulele, acompanhado de cafés e chocolate quente, e uma fogueira ao cair da noite. Aquela paz, aquela natureza exuberante, a lua, as montanhas, o frio, o fogo, a música! Foi realmente um momento lindo, muito lindo!!

Acampamento montado e encontrando amigos da estrada
Música de acampamento
E nesse visual!!
Fogueira ao lado de amigos sob a super lua!
Os picos nevados sob a luz das estrelas
Acampando sob um céu de estrelas a 4000 metros de altitude

 

O hiking

O dia seguinte seria o nosso primeiro hiking e o último dos nossos amigos. Acabou sendo o hiking às Lagunas, desobedecendo a ordem “usual” dos caminhos, pois este é o que se situa no centro. Quando analisamos o mapa do parque e suas trilhas, normalmente eles seguem a sequencia dos hikings iniciando no que se situa à direita, depois centro e finalizando na trilha da esquerda, ou vice-versa. A nossa ordem estava completamente às avessas! Segundo nossos documentos de acesso, se algo nos acontecesse, iam nos socorrer na trilha errada! Tudo aquilo pra nada…
Para nós, qualquer caminho valia. Tudo era novidade! Acordamos as 5h, ainda noite, num friiiio que congelou a barraca, congelou a água dos canos, congelou a Maria. Nos arrumamos no estilo cebola – camadas de roupas pra ir descascando ao esquentar do dia e do nosso corpo – as mochilas já preparadas de lanches e snacks gordurosos para nos sustentar na altitude e uma garrafa de água que poderíamos repor nos rios ao longo da caminhada. Tomamos um ótimo café da manhã e rumamos em carriata para o acesso do parque encontrar nosso guia. Do camping ao acesso foram aproximadamente 20min de carro. O guia nos aguardava, mostramos os documentos aos guardas confirmando que estávamos dentro das exigências e vamo que vamo! O guia era um fã do Brasil e de futebol! Sabia muito mais que o Lú de cada jogador de cada time de todos os estados brasileiros!! Seguiu fazendo milhões de perguntas, que o Lu desinteressado por futebol se virava pra responder com um pouco mais de informação que o próprio inquisidor já não saberia.
A caminhada começa em meio as fazendas, passando por porteiras que devem se manter fechadas para as vaquinhas e cavalos não se perderem por aí! Este caminho é o com a inclinação mais leve entre as três opções do parque. E mesmo assim desde o início eu senti muito o cansaço pela falta de ar. Apesar de já ter feito alguns hikings em altitudes elevadas, sou realmente muito sensível ao ar rarefeito. O Lu se adaptou muito mais rápido. Nossos companheiros já estavam bem aclimatados e seguiam num ritmo acelerado que para mim foi bem complicado de acompanhar. Fui a última, quase todo o trajeto.
No princípio do hiking cruzamos por uma planície de Páramos, coberta de Frailejones de todos os tamanhos e contornada por montanhas altíssimas e suas encostas de pedra. Depois de cruzar este vale começamos a subir. A subida é por caminhos de pedras. Para subir é fácil, para descer foi bem escorregadio. Ao longo de quase toda nossa caminhada não encontramos ninguém. O barulho era só de nossos passos e respiração. Enquanto subíamos cruzamos por diversos riachos e pequenas cascatas. Cruzamos por um paredão imenso de pedra curva onde nos divertimos com os ecos. Eu caminhava e parava num ritmo bem lento. E quando chegava aos pontos onde todos descansavam, eles já estavam revigorados recomeçando a trilhar. Algumas vezes eu queria parar só pra ficar ali, contemplando aquela vastidão de paz e natureza. Cada lugar que se olhava era exuberante e fazia a gente se sentir um grãozinho de nada..

Iniciando a caminhada com o dia clareando e a lua cheia ainda no céu!
Morro acima!
Os Frailejones no Páramo!
mais Frailejones
Pausa pra foto!
Pausa pro descanso
Lá longe… Ainda temos muito o que caminhar…
belezas no caminho
desfrute!

 

O Topo – Lagoa e Glaciar

Chegamos ao topo: uma lagoa imensa e azul embelezava ainda mais a paisagem. Uma lagoa a 4500m de altitude. Incrível! Ali cruzamos com outros aventureiros e seus guias, alguns já iniciando a descida. Nos acomodamos na paisagem, descansamos e lanchamos. O Lú e alguns dos meninos decidiram seguir até o glaciar, alguns metros adiante, muitas pedras e pouco ar. Eu fiquei. Estava exausta e sabia que não poderíamos ficar muito por causa do horário que fecha o parque e do clima que começava a ameaçar chuva – me arrependi profundamente!!!! O glaciar é espetacular! Um presente a mais no meio daquela beleza toda!!!
Com as energias levemente recarregadas, começamos a descer. Levamos 4,5h pra subir e 3h para descer, são 12 km de ida e mais 12 km de volta! Pra baixo todo santo ajuda, a gravidade empurra e o ar vem fácil fácil nos pulmõezinhos sedentos, o cuidado se transfere agora aos joelhos e possíveis resbalos. O ritmo foi tranquilo, todos acompanharam numa boa. Inclusive eu! Ao chegarmos à base, o Lú estava a-ca-ba-do!! Se atirou num gramado após a primeira porteira decepcionado que ainda faltava cruzar as fazendas!! Ele que sempre se anima pra fotos, não teve forças pra registrar nossa foto em grupo e nem se mexeu pra negociar o pagamento do guia e estacionamento. Se atirou no carro e dormiu alguns minutos enquanto eu resolvia essas questões e enfiava alguns biscoitos doces güela abaixo nele!!

detalhes…
mar de Frailejones no Páramo Colombiano
lá no alto, quase no topo, lagunas!
e mais lagunas…
lá no alto!
rumo ao glaciar
quase lá

wow!
selfie no glaciar

O banho

Chegamos no camping ainda dia e os mais fortes se aventuraram num banho congelante. Sim, o banho era frio. Frio das montanhas de pico nevado, ou seja, gélido. O Danny, já no seu terceiro dia de banho glacial de 5 segundos, dizia pro Lú: vai agora ainda aquecido do hiking que é melhor e vai te fazer bem! O Lú foi. Escutei os gritos e gemidos dele. Tenso. Todos foram. Todos gritaram e gemeram. O Lú me aconselhou a não ir. Não valia a pena. No meio disso, após estarmos já nos divertindo com os gritos de dor de cada um ao encarar o banho refrigerado, ouvi um senhor (aparentemente um parente do dono que havia chegado por ali) falar algo sobre os banhos. Arrisquei um ‘como vocês conseguem tomar banho frio nesse clima?’ e ele me responde, um pouco se explicando e um pouco se desculpando,’Não é quente, mas fica morninho se deixar pouca água’. Morno? Pois não é que bastava ligar um fio que estava sempre ali, pendurado junto a tomada e que ninguém sabia pra que servia, e a água seria ‘morna’? O bendito fio inútil ligava o chuveiro elétrico e um rádio pra embalar o banho ao som de música local!!Ahhh!!! Agora sim eu encaro esse banho!! Lá me fui bem exibida contar pra todo mundo que meu banho havia sido tão morno que até lavar as costas sem nenhum grito eu consegui!!Foi quase prazeroso. Beijinho no ombro!
Pra finalizar aquele dia 1º de fevereiro, o céu se abriu: era noite de lua cheia. E não era qualquer lua cheia, era a super lua. Estrelas, céu aberto, cervejinha, amigos, mais fogueira e cantoria. Finalizamos o dia cansados, limpos e muito felizes.

P.s.: Tentei inutilmente convencer o Lu a fazer ao menos mais um hiking: o que veríamos a neve. Sem chance. O meu surfista já tinha tido seu estoque mensal de hikings na montanha – e pelo jeito era um só! Nossos amigos que fizeram os três caminhos disseram que o primeiro, à direita no mapa, não vale muito a pena. É bastante esforço para uma vista que conseguimos ver no caminho central de um ângulo, segundo eles, ainda mais interessante. O hiking da outra extremidade chega até à neve, sagrada e intocada. Eles divergiram opiniões entre qual caminho acharam mais bonito, o que nós fizemos juntos, ou o da neve – para o caso de ter que se eleger um. Então acredito que os dois valem muito a pena. Se tiver disposição, faça os três!! Eu fiquei com aquela vontade no peito… No dia seguinte nossos amigos foram embora, e nós ficamos sós até a metade do dia. De última hora decidimos seguir também, nos sentindo meio inseguros de estarmos tão sós naquela vastidão de terras e montanhas! Quando finalizamos toda organização da Maria e estávamos prontos para seguir, o dono aparece com duas viajantes que pegou na passada por El Cocuy! Uma pena. Talvez se a gente tivesse ficado uma noite mais, eu teria conseguido convencer o Lú, já descansado, a encarar mais um hiking, esse sim, diretamente aos picos nevados de El Cocuy.

DICAS

Compre suprimentos na cidade, nas montanhas não tem nada, temos que trazer tudo. Pense em todas as refeições e lanches fáceis para os hikings. Leve chocolate!
Mesmo que tenha pouco tempo, peça mais dias de acesso ao Parque. Vai que muda de ideia, ou que precisa descansar? Melhor garantir.
Nosso guia: Hector Muñoz Bravo – o nome dele esta na lista do parque nacional, com o telefone ao lado. Infelizmente perdemos seu número…
Camping/Hostel Montanhas:
Cabañas Guaicany – Juan Carlos Carreño – www.elcocuyguaicany.com.co
fone: +57 310 566 7554
email: cab_guaicany@yahoo.es
(podem pedir dicas de guia para o Juan Carlos também, assim como combinar com ele para buscá-lo na cidade, ele fala muito e fala rápido, mas não se acanhe! Ele é super querido e solícito)

Confira a primeira parte desse post. Clique aqui!

Posts que possam te interessar:

Hiking ao Vulcão Acatenango na Guatemala

Death valley nos Estados Unidos

Moab e o Arches National Park nos Estados Unidos

 

    2 Responses

  1. Parabéns Caina pela disposição, pelo entusiasmo, pela coragem e pela cumplicidade com o Lu. Adorei ler teu texto. 😍😍😍😍💋💋

    1. Sogrinha amada!! Tu é uma fofa!!! Obrigada pelo carinho de sempre.. <3 Muita saudade de ti!! Um grande beijo pra ti e pro Paulinho!!

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *